“Ela vai voltar, rapaz, e vai voltar mais bonita. É incrível como elas sempre voltam mais bonitas! Eu já vi essa história com outros amigos, você não é o único que “bebeu demais”, “fez sem querer”, “acordou arrependido, mas não dormiu na vontade” e “não é nada disso que você está pensando”. Ela não é a única que ligou a noite inteira sem ninguém atender. A juventude é uma perdição, eu sei, meu avô conta que desde os tempos dele é assim quando as moças colocavam aqueles vestidos até o meio das canelas, sapatinhos discretos, tiara na cabeça, cabelos bem estruturados e iam para a praça mais próximo na tarde de domingo. “Flertes”, dizia ele. Com um olhar ou uma jogada de cabelo lá estão elas! Mulheres e mistérios é um caso tão, mas tão antigo, que as explicações se perderam em um século distante demais para ser comentado. Uma complexidade além dos tempos. Ela vai fazer uma incursão pelo mundo, conhecerá desde belas ilhas da Grécia até aquela vila desconhecida de um país mais desconhecido ainda. Você saberá pelos amigos uma coisa ou outra, acompanhará nas mil redes sociais algumas fotos que ela deixará aparecerem, porque ela é discreta, vale o registro. Ela vai ter cursado uma faculdade, largado outra, feito milhares de amigos novos e continuar com aquele jeito despreocupada de andar. Se ela namorou esse tempo todo? Você jamais saberá. Eles dizem por aí que quando mulher se apaixona mesmo, mas pra valer, ela guarda para si o segredo do resto do mundo. Ela deixa escapar o que quer, mas as declarações de verdade ninguém vê. Estão certas, então, as mulheres: sabem que o amor bonito é o que suporta o silêncio do olhar. Homem não entende isso, ou entende tarde demais, ou não é paciente, ou esquece. Então, boa sorte, talvez ela tenha namorado dez, talvez nenhum, nem os amigos sabem ao certo como funciona essa conta. Perceberá (porque nessa altura já repara em tudo que não reparava nela antes) que ela mudou um pouco o estilo, ficou melhor ainda, incrivelmente melhor. Outro mistério: não basta voltarem; elas voltam melhores. A ciência diz que isso é o tal hormônio da felicidade, que deixa a gente bonito, sabe? Mas não sei, cara, acontece unicamente com as mulheres. E você vai ver que ela fica cada vez mais linda, linda e linda… E, meu Deus, como perdeu essa mulher? Ninguém sabe. Você não deve ser o único na lista; babacas se multiplicam na vida feminina. E a verdade é que toda feliz ela voltará mesmo. Rapaz, ela vai voltar com aquele sorriso de quem é dona do mundo sem nem imaginar, pois elas nunca imaginam. Você, todo louco de amor, todo arrependido por anos atrás, cheio de saudade, anos de academia depois, anos de história depois, vai seguir achando que ela guarda no peito aquela mágoa de quando pegou você com a loirinha do cursinho. Pior ainda: você terá certeza absoluta de que tudo que ela quer ouvir é um pedido de desculpas para voltar aos seus fortes braços outra vez. E aí, meu rapaz, é só partir para o abraço, fazer a festa, comprar o anel e segue o baile! Mas esse é outro mistério que ninguém explica: como elas conseguem sem mais nem menos curar mágoa de homem cafajeste sem nunca ouvir um pedido de desculpas. E por isso ela voltará, mas nunca, nunquinha para você. Para outros cafajestes, certamente, mas não para a figurinha repetida. Porque esse é o último segredo que conto: elas sofrem com a rotina tediosa.
“Sou desastrada, não tenho o corpo perfeito, me esqueço das coisas rápido, gosto muito rápido das pessoas, meu cabelo é bagunçado, sempre fico chateada quando falam mal de mim, mas tento ser forte. Às vezes sou antagônica, mas uma coisa que eu nunca vou conseguir ser, é ser normal.
“Leva apenas um segundo para mudar toda a sua vida. Um segundo para um estranho se tornar seu amigo e um segundo para um amigo virar um desconhecido. Leva apenas um segundo para você se apaixonar e um segundo para essa mágica acabar. Vou guardar todos os meus segundos em silêncio, na esperança de passar todos eles com alguém que saiba que apenas um segundo pode significar uma vida inteira.
“Disseste que se tua voz tivesse força igual à imensa dor que sentes, teu grito acordaria não só a tua casa, mas a vizinhança inteira
“Nem sempre tem que pensar muito sobre o que se deve fazer, mas sim o que deve ser.
“Eu poderia dizer que você-cruzou-o-meu-caminho. Mas a verdade é que eu não sabia para onde estava indo.
Mas não acreditava em nada do que falavam sobre ele; o João que lhe falavam, não era o mesmo que ele conhecia.
— O que me falam não pode ser sobre mim, eu nem sou boa pessoa.
João era uma boa pessoa. Porto seguro para os seus amigos, e para outros tantos que nem chegavam a ser amigos, mas João os tratava tão bem quanto.
— Eu só gosto de ser gente boa, ué. Não é mais que minha obrigação. Isso não faz de mim uma boa pessoa; se eu fosse bom, eu ajudaria as pessoas, ninguém teria o coração partido, não haveria corrupção.
João ajudava as pessoas. Dava de comer aos pobres, viveu sem partir nenhum coração - até preferia partir o seu próprio, a partir o de outra pessoa -, e - não se pode dizer nunca -, quase nunca, praticava um ato de corrupção. Era honesto
— Não passa da minha obrigação.
João não falava mal das pessoas.
— Claro que não! Pra quê falar mal de alguém? É perda de tempo.
João via o lado positivo de todos.
— Eles são legais, são bons; isso não me faz melhor.
João era bom, mas não se via assim. João era o oposto daquelas pessoas que praticam o mal e se acham as melhores; João praticava o bem e se achava das piores pessoas do mundo. João certa vez foi abordado por uma moradora de rua, com uma criança no colo, que vendia balas:
— Compra um aí, pra ajudar a criança a comer, sinhô.
— Quanto é?
— Um real, sinhô.
— Me dá a caixa.
— Brigado, sinhô, Deus vai abençoar.
João pagou a caixa e devolveu à moça, que agradeceu duas vezes mais. João ficou se culpando por não ter ajudado mais.
— Por que eu não paguei um almoço também? João se culpava pelo que fazia de bom. João gostava do que era bom. João tinha aquela mania de fazer o bem…
… como se fosse a pior pessoa do mundo.
João era bom,
— só que não.